segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Bebê


Bebê, estou longe de casa agora, mas você deve estar mais. Já faz algumas semanas que você se foi e eu espero que o universo seja justo e te presenteie com ininterrupto gozos e carinho atrás da orelha. Estive relembrando o nosso breve e recente passado...  Me lembrei do nosso primeiro passeio, há mais ou menos dois anos. Me lembrei do quão tolo eu era em pensar que você poderia me fazer algum mal. Me lembrei de sua ansiedade em passear e de seus músculos se sobressaindo a sua pelagem a cada passo firme que você dava, você praticamente me arrastava ao subir a ladeira da rua de casa. Me lembrei dos brinquedos que você inventava e dilacerava no pátio, vasos de plantas, escova de lavar, prendedores, garrafas de refrigente... E de seu semblante inocente ao ver minha reação perante sua astúcia. Ainda me lembro do seu jeito meigo e inofensivo de pedir carinho, de querer brincar e de pular ao nosso redor enquanto caminhávamos. Me lembro de como você se empenhava em nos fazer sentir bem, queridos e acolhidos. Me lembro de recentemente ter dito na ponta da escada que você merecia algo melhor que esse mundo e suas cruéis condições. Eu não quero mais me lembrar de seus últimos momentos e nem de boa parte dos momentos posteriores aos seus. Obrigado por tudo.


Com um nó cego na garganta,

Leo.

2015

domingo, 28 de agosto de 2016

Cmte. Almirante Moreira

Quinto dia isento comunicação tecnológica, sem celular, sem internet, abastecido pelo clarão do raiar do sol que de manhã cortava minha retina. Abastecido, também, pela sonoridade do tecnobrega e da música popular nortista, que se impunha empoderada a todos os tímpanos ali presentes. Anseios. Partidas. Pré-encontros. O homem em seu íntimo ritual cotidiano. Incontáveis redes atadas, meio a muita água, enxarcada de histórias. A gente facilmente se converte em um confidente para aqueles que necessitam de uma escuta. Assim foi com o venezuelano que seguirá para o Chile movido por uma esperança de melhorias financeiras, e com seu conterrâneo que carrega uma bíblia e segue com ela para São Paulo. E também o Sírio que foge da guerra. Os irmãos manauaras que sofreram abuso sexual pelo padrasto e estão sozinhos rumo a casa da vó em Porto Velho. O Angolano que cruzou o atlântico apenas por uma promessa de emprego em Rio Branco. A mulher assolada pelo machismo e convicta de que o amor não existe mais. Os Franceses que dão a volta ao mundo com suas motocicletas BMW 125. O meio do Rio num ponto de convergência antropológico.

2015

Calça de listras azul e vinho

Soa como às quatro, 
Kelly dorme. 
Eu sugiro uma calça listrada; 
Mamãe possibilita.
Nos intermédios dos cortes; proseamo-nos. Me alongo. 
Retalhos de tecidos se reúnem no chão, 
Kelly oportuniza um cochila no amontoado. 

Experimento. Espelho-me.
Perfeito.

Mamãe finaliza as agulhadas e desliga sua máquina de costura

e eu custo a tirar a calça nova do couro

2014